
Houve um tempo em que me bastava a lembrança do reflexo do sol nas águas para tê-lo concreto em minha memória, em outro tempo precisei senti-lo para sabê-lo real, noutros bastava fechar os olhos e a sonoridade das ondas rebentando na praia diriam o resto...
Cada momento um mar diferente, cada tempo um eu diferente esperando respostas de um oceano mudo... Quantas perguntas e incertezas pairavam sobre um céu de água.
Quando partir? Quando voltar?
E eu tendo apenas a certeza de que as ondas permaneceriam sempre, independente do meu destino.
Cada mergulho era a sensação de voltar ao passado, de acolher as emoções que se foram.
O mar me transformava em ilha. Eu, que nunca fui sozinha por não saber sê-lo!
As águas me permutavam em peixe e sonho; e eu querendo reter tudo o que me ligasse àquela liquidez inconstante.
Um dia desisti de possuí-lo como um objeto meu, o mar era mais que uma meta, era um tipo de personalidade que só se reconhece com o passar dos anos.
É como pessoas que por mais que se observe por séculos só é possível se ver a superfície, bela para uns, perigosa para outros.
Sempre murmurando alguma coisa, pode ser um consolo para os solitários ou uma tormenta para os navegantes.
Toca o céu mas se perde onde nenhum homem jamais pisou - seu coração abissal.
Pode matar a fome de uns e matar de sede a outros.
Retém em suas entranhas mais lendas, encantes e mistérios do que realidade.
Destrói com a mesma facilidade e indiferença com que cria vida.
Ao comando das marés, pode chegar ou partir, permanecer jamais...